Egidio
Dossiê · tom neutro · 2026

Rug pull, pig butchering, exchange falsa: a engrenagem financeira

Transações irreversíveis, pseudonimato, mercados abertos 24 horas por dia e uma regulação ainda fragmentada entre países: a criptomoeda reúne, por construção, boa parte das condições que interessam a um golpista. Este dossiê descreve três mecanismos documentados — sem julgamento sobre quem foi atingido.

Por que a cripto atrai esse tipo de fraude

Uma transferência em blockchain, uma vez confirmada, não pode ser revertida por nenhuma autoridade central — ao contrário de um cartão de crédito ou de uma transferência bancária tradicional, não existe estorno. A isso soma-se o pseudonimato das carteiras, a possibilidade de operar de qualquer país a qualquer hora e uma regulação que ainda varia enormemente de jurisdição para jurisdição. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) reforça esse ponto: o número de "stop orders" (ordens de suspensão) que ela emitiu contra plataformas irregulares no primeiro semestre de 2025 já havia superado o total registrado em todo o ano de 2024.

Fonte: CVM, dados de fiscalização, 1º semestre de 2025.

Três mecanismos, três lógicas diferentes

🏃O rug pull: os criadores somem com a liquidez

Um token ou projeto de finanças descentralizadas atrai investidores com uma campanha de divulgação intensa — às vezes com o endosso de uma figura pública. Depois que o valor de mercado dispara, os criadores retiram a liquidez de uma só vez, e o preço despenca a quase zero em minutos ou horas. O caso mais documentado de 2025 é o token $LIBRA: divulgado pelo presidente da Argentina, Javier Milei, em 14 de fevereiro de 2025, chegou a um valor de mercado de US$ 4,56 bilhões antes de desabar mais de 90% horas depois, com cerca de US$ 251 milhões perdidos por aproximadamente 114 mil carteiras — enquanto investidores ligados ao lançamento sacaram mais de US$ 107 milhões durante o colapso.

Fontes: TRM Labs, "The $LIBRA Affair" (fevereiro de 2025); CoinDesk, abril de 2026.

📈Pig butchering: a mecânica financeira da plataforma falsa

Depois que a confiança é construída (o lado afetivo dessa manipulação é tratado no nosso dossiê sobre o golpe do amor), a vítima é levada a uma plataforma de negociação que parece profissional, mas é inteiramente controlada pelo golpista. Os "ganhos" exibidos no painel são fabricados. Nos estágios iniciais, o FBI documenta que os golpistas costumam liberar pequenos saques — inclusive de "lucros" — de propósito, para provar que a plataforma "funciona" e encorajar depósitos cada vez maiores. Quando a vítima tenta sacar o valor total, a conta é bloqueada sob um pretexto qualquer, como uma taxa ou um "imposto" a ser pago antes da liberação — que nunca acontece.

Fonte: FBI, "Cryptocurrency Investment Fraud" (Operation Level Up).

🎭A exchange clonada ou não autorizada

Um site ou aplicativo copia a identidade visual de uma corretora conhecida — ou se apresenta como uma plataforma internacional legítima — para captar clientes no Brasil sem nenhuma autorização regulatória. Em junho de 2025, a CVM determinou a suspensão da Digital Smart LLC (marca BULLEX), sediada em Nevis, no Caribe, após identificar que a empresa captava clientes brasileiros para operações com valores mobiliários sem registro — a plataforma já acumulava mais de 330 reclamações no Reclame Aqui em seis meses. Em maio de 2024, uma simulação educativa conduzida em conjunto pela CVM e pela ANBIMA, usando um site de corretora falsa operado por quatro meses, registrou 104 mil visitantes únicos — dos quais 48% clicaram em links de investimento, um indicador direto de vulnerabilidade a esse tipo de abordagem.

Fontes: CVM, Ato Declaratório nº 23.539 (junho de 2025); CVM/ANBIMA, simulação educativa (maio de 2024).

O que os órgãos brasileiros registram

R$ 1,6 bi
Valor bloqueado pela Polícia Federal na Operação Fantasos (abril de 2025) contra o esquema Trade Coin Club, que prometia rendimentos de 11% ao mês e atingiu cerca de 100 mil investidores no mundo.
Polícia Federal, Operação Fantasos, abril de 2025.
48%
Proporção de visitantes que clicaram em links de investimento no site de uma corretora falsa criada para fins educativos pela CVM e pela ANBIMA — indicador de quantos poderiam ter caído em um golpe real.
CVM/ANBIMA, simulação educativa, maio de 2024.
24 corretoras
Plataformas digitais de investimento com a operação suspensa pela CVM por falta de autorização para intermediar valores mobiliários, incluindo diversas ligadas a criptoativos.
CVM, ordens de suspensão, 2025.
87%
Parcela das ordens de suspensão emitidas pela CVM em 2025 motivadas pela ausência de autorização para intermediar valores mobiliários — a base legal usada contra a maioria das exchanges e corretoras não registradas.
CVM, dados de fiscalização, 2025.

Um caso documentado: o esquema Trade Coin Club

Em 30 de abril de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Fantasos contra o esquema Trade Coin Club, apresentado às vítimas como uma plataforma automatizada de negociação de criptomoedas com rendimentos garantidos de 11% ao mês — uma promessa incompatível com qualquer operação legítima de mercado. O principal suspeito, Douver Torres Braga, de 48 anos, foi preso na Suíça em fevereiro de 2025 e permanece detido nos Estados Unidos. A operação cumpriu 11 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro (Petrópolis e Angra dos Reis) e bloqueou cerca de R$ 1,6 bilhão em ativos ligados ao esquema, que teria atingido aproximadamente 100 mil investidores em diferentes países ao longo de cerca de dois anos de operação.

Fonte: Polícia Federal, Operação Fantasos, abril de 2025.

Os elementos que se repetem

Promessa de rendimento fixo

Um percentual de retorno garantido e regular (como os 11% ao mês do caso Trade Coin Club) é incompatível com qualquer mercado real, que é por natureza volátil.

Saque de teste liberado

Pequenos saques bem-sucedidos no início não comprovam a legitimidade da plataforma — são, ao contrário, uma tática documentada para justificar depósitos maiores depois.

Sede fora do Brasil

Plataformas sediadas em jurisdições com pouca cooperação legal, como observado no caso BULLEX (Nevis, Caribe), dificultam qualquer ação de recuperação de valores.

Bloqueio no momento do saque

Uma taxa, um "imposto" ou uma verificação inventada surge justamente quando a vítima tenta retirar o valor total — o sinal mais consistente de que a plataforma nunca teve intenção de devolver o dinheiro.

🔒 O Egidio não protege uma carteira de criptomoedas nem uma transação em blockchain — isso está fora do alcance de qualquer aplicativo de segurança móvel. O que ele intercepta é o primeiro contato: o SMS, a mensagem de WhatsApp ou a ligação que atrai a vítima para o site ou o grupo que leva até a plataforma falsa. Veja como funciona a Medusa.

Perguntas frequentes

O que é um rug pull?

É quando os criadores de um token ou projeto de finanças descentralizadas somem com o dinheiro dos investidores depois de esvaziar a liquidez do projeto, geralmente logo após uma campanha de divulgação que infla artificialmente o interesse.

Este dossiê cobre a manipulação afetiva do golpe do amor com cripto?

Não. A manipulação sentimental usada para conquistar a confiança da vítima é tratada no dossiê sobre o golpe do amor. Aqui o foco é a engrenagem financeira: a plataforma de negociação falsa, o saque de teste e o bloqueio final.

Por que um saque de teste bem-sucedido não é garantia de nada?

Porque liberar pequenos saques no início é uma tática deliberada para construir confiança antes de pedir depósitos maiores. O FBI descreve esse padrão como parte do mecanismo típico de fraude de investimento em criptoativos.

É possível recuperar dinheiro enviado para uma fraude com cripto?

Na prática, quase nunca. Transações em blockchain são irreversíveis por design, e as plataformas usadas nesses golpes costumam estar sediadas fora do país, o que dificulta ainda mais qualquer ação judicial ou de recuperação de valores.

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