Uma definição simples
A dark web é uma parte da internet que não aparece nos motores de busca clássicos e que exige um software específico para lhe aceder, concebido originalmente para proteger o anonimato dos seus utilizadores. A grande maioria da sua utilização não tem nada de criminoso. Mas uma parte serve de mercado a atores que compram e revendem dados roubados — é essa parte que este dossiê documenta, sem explicar como lá aceder.
O que realmente se troca
Segundo a avaliação anual da Europol sobre a cibercriminalidade (2025), a economia criminosa online assenta sobretudo no acesso: acesso a contas, a identidades, a informações sensíveis. Dados de acesso, números de cartão bancário, processos médicos e contas de redes sociais são ali vendidos, revendidos e reembalados por corretores de dados especializados.
O papel central do «infostealer»
O método mais comum para alimentar estes mercados não é um ataque espetacular visando uma única pessoa: é um software malicioso chamado infostealer, instalado sem que a vítima se aperceba (muitas vezes através de um ficheiro armadilhado ou de um falso software), que recolhe em massa os dados de acesso e palavras-passe guardados no navegador. O resultado é depois revendido sob a forma de «logs» — lotes de dados brutos, às centenas ou aos milhares, antes sequer de terem sido organizados.
Fonte: Europol, IOCTA 2025.As autoridades recuperam terreno
O desmantelamento destes mercados não é apenas uma ameaça teórica para os seus operadores. Operações conjuntas entre vários países já demonstraram a capacidade das autoridades para os perturbar:
O vocabulário a conhecer
Infostealer
Um software malicioso concebido para recolher em massa os dados de acesso, palavras-passe e cookies de sessão guardados num dispositivo infetado.
Log
Um lote bruto de dados roubados por um infostealer, vendido tal como está antes de qualquer organização — muitas vezes centenas de dados de acesso de uma só vez.
Corretor de acessos
Um revendedor especializado que compra acessos ou dados roubados a granel para os revender, organizados e empacotados, a outros criminosos.
Mercado fechado
Uma plataforma acessível apenas por convite ou após verificação, para limitar os riscos de infiltração por autoridades ou investigadores de segurança.
Perguntas frequentes
A dark web, o que é exatamente?
Uma parte da internet que não é indexada pelos motores de busca clássicos e que exige um software específico para lhe aceder, concebido originalmente para o anonimato. Uma minoria da sua utilização é criminosa, mas é essa que diz respeito à revenda de dados roubados.
Como é que os meus dados de acesso acabam na dark web?
Na maioria das vezes através de um software malicioso chamado infostealer, instalado num dispositivo, que recolhe em massa dados de acesso e palavras-passe guardados e depois os revende sob a forma de «logs» agrupados em mercados especializados.
Como saber se os meus dados lá estão?
O Have I Been Pwned (haveibeenpwned.com) permite verificar gratuitamente se o seu email aparece numa fuga de dados já catalogada, sem necessidade de aceder à própria dark web.
Outros mercados que cobrimos
O mesmo mercado negro de acessos e dados roubados — anunciado em fóruns de cibercrime, negociado por criptomoeda — atinge também instituições e utilizadores de outros mercados de língua portuguesa.
🇦🇴Angola — acesso aos sistemas do BNA oferecido num fórum de cibercrime
Em 2022, alguém no fórum de cibercrime Exploit ofereceu para venda acesso aos sistemas do Banco Nacional de Angola, por um preço não revelado. O banco central voltou a ser alvo de um ciberataque a 6 de janeiro de 2024 — mitigado sem impactos significativos, segundo a instituição, e sem reivindicação por parte de qualquer grupo. Estes episódios ilustram como o acesso a instituições angolanas circula nos mesmos mercados clandestinos que negoceiam dados por todo o mundo.
Fonte: The Record (Recorded Future News), 17/01/2024.Não incluímos aqui Moçambique nem Cabo Verde: apesar de ambos os países registarem cibercrime em crescimento, não encontrámos até à data um caso documentado e datado de dados especificamente colocados à venda num mercado da dark web ligado a estes mercados — preferimos não incluir um cartão do que forçar um caso fraco.