O que se sabe em Portugal
Em setembro de 2025, a Polícia Judiciária participou numa operação transnacional com Espanha, Bulgária e Lituânia, apoiada pela Europol e pela Eurojust, contra uma rede de fraude com criptoativos que terá lesado vítimas na Europa em cerca de cem milhões de euros — entre os ofendidos identificados em Portugal, o prejuízo ultrapassa um milhão de euros.
Fonte: Público, 23-24/09/2025; Observador, 24/09/2025.Os três mecanismos
🪙O rug pull: a equipa que desaparece com a liquidez
Um projeto de token ou de finanças descentralizadas (DeFi) constrói hype à sua volta — redes sociais, promessas de rendimento, comunidade ativa — antes de os próprios criadores retirarem subitamente a liquidez do mercado, deixando o token sem valor. A Chainalysis documenta que as perdas ligadas a rug pulls passaram de 1,3 milhões de dólares em 2022 para 94,8 milhões de dólares em 2024, e estima que 3,59% de todos os novos tokens lançados em 2024 exibiram um comportamento típico de rug pull. Em abril de 2025, o colapso repentino do token Mantra (OM), que perdeu mais de 90% do seu valor num único dia, foi amplamente investigado como um suspeito rug pull pela imprensa especializada.
Fonte: Chainalysis, The 2025 Crypto Crime Report.📈A mecânica financeira do "pig butchering"
A vertente emocional destas burlas — a relação de confiança construída ao longo de semanas — está descrita no nosso dossiê sobre burlas românticas. Aqui, o foco é o mecanismo de investimento: a vítima é conduzida para uma plataforma de negociação falsa, com um painel que mostra ganhos fabricados em tempo real. Um primeiro "teste de levantamento", de um valor reduzido, é deliberadamente aprovado para consolidar a confiança — antes de o levantamento do montante real ser bloqueado, sob pretexto de taxas, impostos ou verificações adicionais a pagar antecipadamente. É exatamente este padrão que a Polícia Judiciária descreve na burla de 1500 vítimas mencionada acima: "métodos fraudulentos de investimento em carteiras de criptoativos".
Fonte: Público, 08/10/2025 · ver também o dossiê Burlas românticas.🎭Corretoras clonadas e falsos selos regulatórios
A CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) publica regularmente, no seu sistema de alertas, avisos sobre entidades a operar em Portugal sem autorização — incluindo plataformas que imitam de perto o nome ou o aspeto visual de corretoras legítimas. A 21 de outubro de 2025, a CMVM alertou os investidores sobre a atividade não autorizada da "EG Investment Group" e da "XUEX". Desde 1 de julho de 2026, o novo regulamento europeu sobre mercados de criptoativos (MiCA) está em vigor, e caberá ao Banco de Portugal e à CMVM divulgar e manter atualizada a lista das entidades efetivamente autorizadas a prestar serviços de criptoativos em Portugal — um único critério fiável, distinto do aspeto profissional de um site.
Fonte: CMVM, Alertas sobre Intermediação Financeira Não Autorizada, 21/10/2025 · Observador, 29/06/2026.Perguntas frequentes
O que é um rug pull?
É o abandono súbito de um projeto de token ou de finanças descentralizadas pelos seus criadores, que retiram a liquidez do mercado depois de terem inflacionado artificialmente o interesse à sua volta, deixando os investidores com ativos sem valor.
Uma vez enviada, é possível recuperar criptomoeda transferida para uma burla?
Na prática, quase nunca. As transações em blockchain são concebidas para ser irreversíveis: não existe um banco central ou uma entidade emissora que possa anular a operação, ao contrário de uma transferência bancária tradicional.
Como reconhecer uma corretora de criptoativos clonada ou falsa?
A CMVM publica regularmente alertas sobre entidades a operar em Portugal sem autorização, por vezes usando nomes e visuais muito próximos de plataformas legítimas. Antes de investir, a verificação da autorização junto da CMVM ou do Banco de Portugal é o único critério fiável — um site com aspeto profissional não é garantia de legitimidade.
Este dossiê cobre a manipulação emocional das burlas românticas ligadas a criptoativos?
Não — essa vertente está tratada no dossiê dedicado às burlas românticas. Aqui o foco é o mecanismo financeiro: a plataforma de investimento falsa, os ganhos fabricados e o bloqueio do levantamento real.
Outros mercados que cobrimos
O mesmo mecanismo financeiro — plataforma falsa, ganhos fabricados, levantamento bloqueado — reaparece noutros mercados de língua portuguesa, com os seus próprios reguladores a documentá-lo.
🇦🇴Angola — o BNA alerta contra a "Makanda Transfer" e mais nove entidades
Em 30 de junho de 2026, o Banco Nacional de Angola (BNA) alertou o público para dez entidades a operar sem autorização no mercado financeiro angolano, entre as quais a "Makanda Transfer", identificada por publicitar a comercialização de criptoativos em plataformas digitais e redes sociais como o Facebook e o Instagram, em violação da Lei n.º 11/24 e da Lei n.º 14/21. O BNA recomenda que o público evite qualquer relação comercial ou financeira com estas entidades.
Fonte: Banco Nacional de Angola, comunicado, 30/06/2026 (via Mercado.co.ao).🇲🇿Moçambique — pirâmides financeiras disfarçadas de "trading"
O Banco de Moçambique alerta para a proliferação de esquemas que prometem "investir em bitcoin através da nossa plataforma" ou fazer "forex trading com algoritmos avançados", nos quais o dinheiro nunca chega de facto a um mercado real — serve apenas para pagar "retornos" aos investidores mais antigos, o mecanismo clássico de um esquema em pirâmide. Em 2025, o país registou quase 40 mil incidentes cibernéticos, dos quais cerca de 78% dos processos analisados pelo Ministério Público estavam ligados a fraude com instrumentos de pagamento eletrónico e burla informática, com cerca de 900 pessoas identificadas como vítimas.
Fonte: Banco de Moçambique · Procuradoria-Geral da República, IV Seminário sobre Cibercrime, citado por O País, 29/06/2026.🇨🇻Cabo Verde — o alerta do BCV contra a "OPTCOIN"
A 8 de outubro de 2025, o Banco de Cabo Verde (BCV) alertou publicamente para a atividade ilegal da empresa "OPTCOIN", sediada na Praia, que captava fundos reembolsáveis do público sem a autorização obrigatória do banco central — uma infração à Lei de Bases do Sistema Financeiro. Segundo a imprensa cabo-verdiana, este tipo de esquema costuma exigir um investimento mínimo de 50 mil escudos, com a promessa de duplicar o valor em poucas semanas.
Fonte: Banco de Cabo Verde, comunicado, 08/10/2025 · Notícias do Norte, 10/11/2025.Portugal tem comunidades angolanas, moçambicanas e cabo-verdianas expressivas, com laços familiares que atravessam o Atlântico nos dois sentidos. O Círculo, o modo Família da Egidio, protege até 4 telemóveis com uma só subscrição — o link de convite atravessa fronteiras como qualquer link do WhatsApp, por isso pode proteger também quem, em Angola, Moçambique ou Cabo Verde, é alvo destes mesmos esquemas.