Egidio
Dossiê · tom neutro · 2026

Rug pulls, corretoras clonadas e o mecanismo do "pig butchering" financeiro

As transações em criptoativos são, por conceção, irreversíveis, pseudónimas e disponíveis 24 horas por dia em mercados globais pouco harmonizados entre reguladores — três características que tornam este ecossistema estruturalmente atrativo para quem constrói fraudes financeiras. Este dossiê descreve três mecanismos documentados, sem juízo de valor sobre as vítimas.

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O que se sabe em Portugal

1500
Vítimas identificadas numa única burla de investimento em criptoativos desmontada pela Polícia Judiciária, com cerca de 4000 operações de dissipação de fundos através de oito contas bancárias, num prejuízo total estimado em cerca de 1,5 milhões de euros.
Público, 08/10/2025.
60
Casos de burla de investimento e criptomoedas registados pela Linha Internet Segura em 2025, entre os 949 casos de cibercrime reportados — um aumento homólogo de 39% em relação ao ano anterior.
Linha Internet Segura, citado por Público e Rádio Renascença, 10/02/2026.

Em setembro de 2025, a Polícia Judiciária participou numa operação transnacional com Espanha, Bulgária e Lituânia, apoiada pela Europol e pela Eurojust, contra uma rede de fraude com criptoativos que terá lesado vítimas na Europa em cerca de cem milhões de euros — entre os ofendidos identificados em Portugal, o prejuízo ultrapassa um milhão de euros.

Fonte: Público, 23-24/09/2025; Observador, 24/09/2025.

Os três mecanismos

🪙O rug pull: a equipa que desaparece com a liquidez

Um projeto de token ou de finanças descentralizadas (DeFi) constrói hype à sua volta — redes sociais, promessas de rendimento, comunidade ativa — antes de os próprios criadores retirarem subitamente a liquidez do mercado, deixando o token sem valor. A Chainalysis documenta que as perdas ligadas a rug pulls passaram de 1,3 milhões de dólares em 2022 para 94,8 milhões de dólares em 2024, e estima que 3,59% de todos os novos tokens lançados em 2024 exibiram um comportamento típico de rug pull. Em abril de 2025, o colapso repentino do token Mantra (OM), que perdeu mais de 90% do seu valor num único dia, foi amplamente investigado como um suspeito rug pull pela imprensa especializada.

Fonte: Chainalysis, The 2025 Crypto Crime Report.

📈A mecânica financeira do "pig butchering"

A vertente emocional destas burlas — a relação de confiança construída ao longo de semanas — está descrita no nosso dossiê sobre burlas românticas. Aqui, o foco é o mecanismo de investimento: a vítima é conduzida para uma plataforma de negociação falsa, com um painel que mostra ganhos fabricados em tempo real. Um primeiro "teste de levantamento", de um valor reduzido, é deliberadamente aprovado para consolidar a confiança — antes de o levantamento do montante real ser bloqueado, sob pretexto de taxas, impostos ou verificações adicionais a pagar antecipadamente. É exatamente este padrão que a Polícia Judiciária descreve na burla de 1500 vítimas mencionada acima: "métodos fraudulentos de investimento em carteiras de criptoativos".

Fonte: Público, 08/10/2025 · ver também o dossiê Burlas românticas.

🎭Corretoras clonadas e falsos selos regulatórios

A CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) publica regularmente, no seu sistema de alertas, avisos sobre entidades a operar em Portugal sem autorização — incluindo plataformas que imitam de perto o nome ou o aspeto visual de corretoras legítimas. A 21 de outubro de 2025, a CMVM alertou os investidores sobre a atividade não autorizada da "EG Investment Group" e da "XUEX". Desde 1 de julho de 2026, o novo regulamento europeu sobre mercados de criptoativos (MiCA) está em vigor, e caberá ao Banco de Portugal e à CMVM divulgar e manter atualizada a lista das entidades efetivamente autorizadas a prestar serviços de criptoativos em Portugal — um único critério fiável, distinto do aspeto profissional de um site.

Fonte: CMVM, Alertas sobre Intermediação Financeira Não Autorizada, 21/10/2025 · Observador, 29/06/2026.
🔒 A Egidio não protege uma carteira de criptoativos nem uma transação em blockchain — nenhuma aplicação o pode fazer, uma vez que essas transações são irreversíveis por conceção. O que a Egidio intercepta é o primeiro contacto: a mensagem no WhatsApp ou a chamada que atrai a vítima para a plataforma falsa, antes de qualquer transferência acontecer. Veja como funciona o Medusa.

Perguntas frequentes

O que é um rug pull?

É o abandono súbito de um projeto de token ou de finanças descentralizadas pelos seus criadores, que retiram a liquidez do mercado depois de terem inflacionado artificialmente o interesse à sua volta, deixando os investidores com ativos sem valor.

Uma vez enviada, é possível recuperar criptomoeda transferida para uma burla?

Na prática, quase nunca. As transações em blockchain são concebidas para ser irreversíveis: não existe um banco central ou uma entidade emissora que possa anular a operação, ao contrário de uma transferência bancária tradicional.

Como reconhecer uma corretora de criptoativos clonada ou falsa?

A CMVM publica regularmente alertas sobre entidades a operar em Portugal sem autorização, por vezes usando nomes e visuais muito próximos de plataformas legítimas. Antes de investir, a verificação da autorização junto da CMVM ou do Banco de Portugal é o único critério fiável — um site com aspeto profissional não é garantia de legitimidade.

Este dossiê cobre a manipulação emocional das burlas românticas ligadas a criptoativos?

Não — essa vertente está tratada no dossiê dedicado às burlas românticas. Aqui o foco é o mecanismo financeiro: a plataforma de investimento falsa, os ganhos fabricados e o bloqueio do levantamento real.

Outros mercados que cobrimos

O mesmo mecanismo financeiro — plataforma falsa, ganhos fabricados, levantamento bloqueado — reaparece noutros mercados de língua portuguesa, com os seus próprios reguladores a documentá-lo.

🇦🇴Angola — o BNA alerta contra a "Makanda Transfer" e mais nove entidades

Em 30 de junho de 2026, o Banco Nacional de Angola (BNA) alertou o público para dez entidades a operar sem autorização no mercado financeiro angolano, entre as quais a "Makanda Transfer", identificada por publicitar a comercialização de criptoativos em plataformas digitais e redes sociais como o Facebook e o Instagram, em violação da Lei n.º 11/24 e da Lei n.º 14/21. O BNA recomenda que o público evite qualquer relação comercial ou financeira com estas entidades.

Fonte: Banco Nacional de Angola, comunicado, 30/06/2026 (via Mercado.co.ao).

🇲🇿Moçambique — pirâmides financeiras disfarçadas de "trading"

O Banco de Moçambique alerta para a proliferação de esquemas que prometem "investir em bitcoin através da nossa plataforma" ou fazer "forex trading com algoritmos avançados", nos quais o dinheiro nunca chega de facto a um mercado real — serve apenas para pagar "retornos" aos investidores mais antigos, o mecanismo clássico de um esquema em pirâmide. Em 2025, o país registou quase 40 mil incidentes cibernéticos, dos quais cerca de 78% dos processos analisados pelo Ministério Público estavam ligados a fraude com instrumentos de pagamento eletrónico e burla informática, com cerca de 900 pessoas identificadas como vítimas.

Fonte: Banco de Moçambique · Procuradoria-Geral da República, IV Seminário sobre Cibercrime, citado por O País, 29/06/2026.

🇨🇻Cabo Verde — o alerta do BCV contra a "OPTCOIN"

A 8 de outubro de 2025, o Banco de Cabo Verde (BCV) alertou publicamente para a atividade ilegal da empresa "OPTCOIN", sediada na Praia, que captava fundos reembolsáveis do público sem a autorização obrigatória do banco central — uma infração à Lei de Bases do Sistema Financeiro. Segundo a imprensa cabo-verdiana, este tipo de esquema costuma exigir um investimento mínimo de 50 mil escudos, com a promessa de duplicar o valor em poucas semanas.

Fonte: Banco de Cabo Verde, comunicado, 08/10/2025 · Notícias do Norte, 10/11/2025.

Portugal tem comunidades angolanas, moçambicanas e cabo-verdianas expressivas, com laços familiares que atravessam o Atlântico nos dois sentidos. O Círculo, o modo Família da Egidio, protege até 4 telemóveis com uma só subscrição — o link de convite atravessa fronteiras como qualquer link do WhatsApp, por isso pode proteger também quem, em Angola, Moçambique ou Cabo Verde, é alvo destes mesmos esquemas.

Para ir mais longe